Artigos sobre cultura em geral combinados com dicas de looks para todos os gêneros, faixas etárias e tipos físicos. Curiosidades e informações sobre o mundo da moda e outras culturas. Agregando valor não só ao seu guarda-roupa!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Art Déco

No post anterior comecei a falar no assunto Art Déco, mas não terminei. Continuando então do ponto onde parei, o art déco foi uma das fontes de inspiração de Esther Bauman para a nova coleção da Acquastudio no último Fashion Rio.
Acquastudio no Fashion Rio Verão 2012
O nome do movimento vem da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas (em francês: Exposition International des Arts Décoratifs e Industriels Modernes), realizada em Paris, em 1925. O estilo liga-se a outro, o art nouveau, mas enquanto este explora as linhas sinuosas e assimétricas e tem como motivos as formas vegetais e os ornamentos florais (era conhecido como "estilo floral"), o art déco segue outra direção: predominam linhas retas ou circulares estilizadas, as formas geométricas e o design abstrato (inspirado no cubismo).
Inicialmente apresenta-se como um estilo luxuoso, destinado à burguesia enriquecida do pós-guerra, empregando materiais caros como jade, laca e marfim.
Na moda podemos ver o movimento tomar formas nas criações do estilista Paul Poiret (1879-1944) e nos vestidos abstratos de Sonia Delaunay.
Paul Poiret foi um estilista francês que trabalhou para Doucet e para a Maison Worth. Fundou a École Martine, onde criava estampas têxteis e artigos para decoração. Uma das suas mais louváveis realizações foi ter abolido o espartilho e com isso ter dado liberdade ao corpo feminino. 
Vestidos Orientais de Paul Poiret
Sonia Delaunay foi uma artista de origem russa que atuou em diversos setores: pintura, design de interiores, cinema, indústria têxtil e moda. Trabalhava com o conceito de "simultaneidade", criado através de contrastes simultâneos entre diversas cores. 

A partir de 1934, ano de realização da exposição Art Déco no Metropolitan Museum de Nova York, o estilo passa a dialogar mais diretamente com a produção industrial e com os materiais e formas passíveis de serem reproduzidos em massa.
O barateamento da produção leva à popularização do estilo que invade a vida cotidiana. É o caso das luminárias de vidro criadas pelo francês René Lalique (1860-1945), vendidas em grandes lojas.
Luminária de René Lalique

Apesar de seu enraizamento francês, os motivos e padrões art déco se expandem rapidamente por toda a Europa e pelos Estados Unidos, impregnando o music hall, o cinema de Hollywood, a arquitetura (por exemplo, a cúpula do edifício Chrysler, em Nova York, 1928), a moda, os bibelôs, as jóias, as artes plásticas, o urbanismo,  etc...
 edifício Chrysler
 O estilo do art déco influenciou artistas brasileiros também. Dentre eles, podemos destacar o escultor Victor Brecheret (1894-1955) e o pintor Vincent do Rego Monteiro (1899-1970).
Daisy, de Brecheret - 1921
Na arquitetura, podemos citar o edifício-sede da Biblioteca Mário de Andrade e o Estádio do Pacaembu, ambos na cidade São Paulo, como dois grandes marcos arquitetônicos do estilo na cidade. Mas há outros exemplos significativos do art déco no Brasil: a Torre do Relógio da Estação Central do Brasil e o Cristo Redentor, ambos no Rio de Janeiro.

Torre do Relógio da Central do Brasil - Rio de Janeiro
Cristo Redentor - Rio de Janeiro: o maior monumento de art déco existente 

Desfile Reinaldo Lourenço no SPFW Inverno 2009

sábado, 4 de junho de 2011

Fashion Rio Verão 2012 e Mondrian


Já ouviu falar na frase “quanto mais simples melhor”? Ou “menos é mais”? Se você é adepto destes pensamentos, talvez se identifique com a arte de Mondrian. 

Quem se inspirou no artista holandês foi a Acquastudio, que  apresentou sua coleção no primeiro dia do Fashion Rio Verão 2012.   


Hicoulture-se sobre Mondrian
Pieter Cornelis Mondriaan, mais conhecido como Piet Mondrian, nasceu em Amersfoort, Holanda, em 1872.  Explicando a introdução do post, Mondrian chegou ao extremo da simplificação. No início da carreira suas obras tinham traços impressionistas, depois cubistas, mas não demorou para que ficasse cada vez mais abstrato e inaugurasse a fase conhecida como neoplasticismo. 

"Árvore Vermelha" Piet Mondrian - 1908

"Árvores a luz da lua" Piet Mondrian - 1908
"Noite de Verão" Piet Mondrian - 1906
"Amarilis" Piet Mondrian - 1910
"Moinho Vermelho" Piet Mondrian - 1911

O que é o neoplasticimo?



Mondrian explica sua teoria na revista De Stilj, fundada por ele e por seu amigo Theo van Doesburg. O Neoplasticismo defendia uma total limpeza espacial para a pintura, reduzindo-a a seus elementos mais puros e buscando suas características mais próprias. Os fundadores da revista acreditavam que a arte não deveria limitar-se 
à 
reprodução de imagens de objetos reais, mas expressar o universal e o absoluto oculto atrás da realidade. Foi dentro deste ponto de vista que Mondrian passou a trabalhar apenas com as cores primárias (amerelo, azul e vermelho) e limitou-se a pintar somente linhas verticais e horizontais, formando apenas ângulos retos. Isso porque acreditava que uma superfície plana só deveria conter elementos planos, implicando na eliminação de toda linha curva. 


























A aplicação de suas teorias conduziu Mondrian a realizar obras como “Composição em vermelho, amarelo e azul” (1921), na qual a pintura, composta unicamente por algumas linhas e blocos de cores bem equilibrados (ainda que assimétricos), cria um efeito monumental apesar da escassez de meios, propositalmente limitados, que emprega. Esse quadro foi usado como inspiração para Yves Saint Laurent em sua coleção de 1965.
"Composição em Vermelho, Amarelo e Azul" Piet Mondrian - 1921 e Desfile de YSL em 1965
O cubismo foi fundamental para o nascimento desta revolução na forma de pintar, tendo desfigurado os modos tradicionais de representação. 
Outro movimento que influenciou o neoplasticismo foi a teosofia, espécie de “religião” ou “filosofia”, da qual Piet Mondrian era membro.
O que é a teosofia?
O objetivo do movimento teosófico era a busca da harmonia universal perfeita. Significa dizer que o universo não está em harmonia então? Exatamente. Bom, eu não precisava de Mondrian para saber disso e sua explicação sinceramente vai além da minha pretensão de entender o porquê desta constatacão. Mas vamos expô-la mesmo assim (afinal de contas o artista aqui não sou eu). 
Os teosóficos acreditavam que o universo estaria evoluindo não só em relação 
à
s espécies (como alegou a Teoria da Evolução de Darwin), mas em escala cósmica. Estaríamos vivendo sucessivas encarnações rumo à perfeição.

























Portanto o objetivo principal de Mondrian em sua pintura foi essa tentativa de alcançar o que chamava de “beleza universal”. A teosofia nada mais era do que uma filosofia que ditava como alcançar esse objetivo. Dizia que existem leis que regem a produção artistica, as quais estabelecem uma arte não-figurativa, uma vez que a arte só se  expressa de uma forma esteticamente purificada de forma abstrata, representação pura do espírito humano. Como tal, visando a expressão de um princípio universal, o Neoplasticismo bania o individualismo excessivo (presente na arte figurativa) e reduzia a pintura aos elementos constitutivos da linha, do espaço e da cor.
O número de Ouro
Esse é o limite ao qual minha compreensão pode chegar: o tal número de ouro. Conhecido e aplicado desde tempos remotos, o número de ouro traduz a proporção geométrica mais conhecida e usada na pintura, escultura e arquitetura clássicas, renascentistas e pós modernistas. Baseia-se no seguinte princípio:
"seccionar um segmento de reta de tal forma que a parte menor esteja para a maior como este está para o todo".
Basta dizer que o conceito foi usado extensivamente nas mais variadas obras ao longo da história: desde as pirâmides do Egito às obras de Leonardo da Vinci e ao edifício das Nações Unidas.
Mas nem o próprio Mondrian conseguiu ser 100% fiel às suas teorias. Em 1943, um ano antes de sua morte, pinta sua obra-prima: “Broadway Boogie Woogie”. Inspirada em duas referências do mundo real, a grelha urbana de Manhattan e o ritmo do Boogie Woogie (o estilo de jazz que Mondrian adorava), representa a libertação do artista às próprias regras que tinha criado.













“Broadway Boogie Woogie” Piet Mondrian - 1943

A obra de Piet Mondrian, muitas vezes copiada, continua a inspirar a arte, o design, a moda e a publicidade, que a apropriam como design, sem necessariamente levar em conta sua fundamental e filosófica recusa à imagem.

Looks da Aquastudio, inspirados na obra de Piet Mondrian: 


Art Déco












Outra inspiração do desfile da Acquastudio foi a Art Déco, um movimento internacional de design de 1925 até 1939, que influenciou as artes visuais, a arquitetura, o design de interiores, a pintura, as artes gráficas e o cinema. Você deve estar se perguntando: “ué, mas o desfile não foi inspirado em Mondrian? O que a Art Déco tem a ver com isso?" Não, Esther Bauman não confundiu os assuntos. É que a Art Déco foi de uma certa forma uma mistura de diversos movimentos que estavam ocorrendo ao mesmo tempo: o construtivismo, o cubismo, o modernismo, bahaus, art nouveau e futurismo.
Todos foram complementares. A diferença é que a Art Déco foi meramente decorativa, sem nenhuma pretensão filosófica ou política, e sim vista como estilo elegante, funcional e ultra moderno. Edifícios, esculturas, jóias, luminárias e móveis são geometrizados. Podemos notar essa forte caracterísca em alguns looks da Acquastudio. 

Sem abrir mão do requinte, os objetos têm decoração moderna. Mesmo quando feitos com bases simples, como concreto (betão) armado e compensado de madeira, ganham ornamentos de bronze, mármore, prata, marfim e outros materiais nobres. Diferentemente da art nouveau, mais rebuscada, a arte déco tem mais simplicidade de estilo. Mais uma vez, vemos esta influência no trabalho de Esther, que misturou materiais nobres (organza) e rústicos (clutches de madeira e cintos de corda). 

Como o post está muito grande, vou deixar para falar mais sobre Art déco no próximo. 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Fashion Rio Verão 2011/12 e Frida Kahlo

Hoje faço uma pausa no assunto jeans para escrever sobre uma das maiores pintoras do século XX e inspiração de um dos desfiles do Fashion Rio Verão 2011/12.

"Pensando en la Muerte" Frida Kahlo - 1943
O desfile em questão foi o da Melk Z-da e a artista homenageada foi Frida Kahlo. Acho que, para criar roupas agradáveis ao olhar, a obra de Kahlo teve que passar por uma lavagem e tanto, com direito a Vanish Poder O2 nas manchas mais resistentes. Isso porque seus quadros nada têm de belo. Representam dores quase que viscerais sofridas pela artista ao longo de sua vida. O auto-retrato acima foi realizado quando sua saúde estava bastante debilitada e a artista passava muito tempo pensando na morte. A relação entre a morte (caveira) e a vida (natureza) estava sempre presente em suas obras. Considerada surrealista por muitos, a própria Frida não se definia como tal. Dizia que não pintava sonhos, e sim sua própria realidade. Uma realidade repleta de imagens chocantes: corpos dilascerados, às vezes amenizados por ilustrações de natureza morta, igualmente dilascerada. Não sabemos se a artista quer dar sofrimento à natureza ou adicionar morte à sua realidade sofrida, que antes estivesse morta do que viva. Por várias vezes tenta o suicídio e a morte é finalmente trazida por uma pneumonia, aos seus 47 anos, talvez tarde demais para uma vida marcada por mais tragédias do que alguém deveria poder suportar. 

"Viva la Vida" Frida Kahlo - 1954













Nos looks do desfile consigo enxergar as folhagens por muitas vezes retratadas por Kahlo. Também é possível fazer o paralelo com a natureza morta, especialmente a melancia, muito presente em sua obra.
De resto parece que a obra de Kahlo foi representada em um aspecto um pouco lúdico, abrandada por uma beleza que gostaria de ter existido. Talvez o desfile seja um pouco surrealista: a versão paradisíaca da obra de Frida Kahlo. Dito isso, tenho que reconhecer que é um desafio grande transformar o duro, feio e dóido em leve, belo e agradável.  


HICOULTURE-SE sobre Frida Kahlo

"Las Dos Fridas" Frida Kahlo - 1939

"As Duas Fridas" foi pintado logo após sua separação de Diego Rivera e representa a dor pela qual passou durante essa crise conjugal. Segundo a pintora, a Frida da direita era a admirada e amada por Diogo, representada com o coração inteiro. A da esquerda era a abandonada por ele, com o coração partido. A primeira Frida segura um amuleto com a foto de Diego quando criança, do qual parte uma veia que une os dois corações e é finalmente cortada por uma tesoura cirúrgica. A Frida abandonada tenta parar o fluxo de sangue que vem de Diego, mas não consegue. As mãos dadas demonstram que a única companheira de Frida é ela mesma. 

Nascida em Coyoacán (ao sul da Cidade do México) no início do século XX, Magdalena Carmen Frieda Kahlo foi uma das artistas mais importantes do México. Teve uma vida sofridíssima, marcada por doenças, cirurgias e acidentes. Podemos sentir um pouco de sua tristeza através de seus quadros, que retratam nua e cruamente os percalços sofridos pela artista durante toda a sua vida e sua reação a eles. 

"El Venado Herico" Frida Kahlo - 1946

Quando penso em Frida não consigo deixar de me sentir mal. Ela foi uma daquelas pessoas que nos fazem sentir pequenos. Afinal essa é a única reação possível ao contemplarmos seus quadros, que nada mais são do que a ilustração de sua alma dilacerada, exposta diante de nossos olhos, hora através de seus diversos auto-retratos, hora através de suas não menos numerosas naturezas mortas.
1943 -  Que bonita es la vida cuando nos da sus riquezas

Sua trágica história começa quando contrai poliomielite, aos seis anos de idade. A doença deixa seu pé esquerdo atrofiado e a partir de então começa a usar calças e longas saias mexicanas, uma de suas marcas registradas (que poderia ter sido retratada no desfile da Melk Z-da diga-se de passagem).









Aos 18 anos sofre um grave acidente. Um bonde no qual viajava choca-se com um trem. Um cilindro metálico de um dos veículos perfura as costas de Frida, atravessa sua pélvis e sai por sua vagina. Tal acidente Faz a artista ter de usar vários coletes ortopédicos de materiais diferentes, chegando inclusive a pintar alguns deles.
"La Columna Rota" Frida Kahlo - 1944

Por causa dessa tragédia, fez várias cirurgias e ficou muito tempo de cama, quando começou a pintar. Ao lado de sua cama foi colocado um espelho para que pudesse se ver e ser o seu próprio modelo.

"Hospital Henry Ford" Frida Kahlo - 1932
Assim surgiram os auto-retratos. Esses retratos ajudaram-na a moldar uma ideia do seu próprio eu.  A dor e seus tormentos se transformam nos materiais preferidos de sua pintura. De certa forma, esse lidar com a própria dor é que lhe dá sentindo na vida.

"Raíces" Frida Kahlo - 1943
Não muito tempo depois conhece o artista e futuro marido Diego Riviera. Passa um tempo vivendo com ele nos Estados Unidos, um tanto quanto a contra-gosto. Isso se deve não só ao fato de viver a sombra do marido, mas também porque considerava o Império como um imenso galinheiro imundo e desconfortável, onde os proprietários ricos frequentam festas noite e dia enquanto milhares e milhares de pessoas morrem de fome. 
É desta época seu quadro "Meu vestido pendurado ali"
"A la Cuelga Mi Vestido" Frida Kahlo - 1933

O vestido vazio poderia significar que Frida nunca esteve de corpo alma nos Estados Unidos, tendo seu coração pertencido sempre ao México.
Como se as tragédias relatadas até aqui não bastassem, viveu um casamento conflituoso com Rivera, marcado por traições de ambos os lados, o que aumentou ainda mais as suas feridas. Frida teve casos que incluíram o revolucionário russo León Trotski. Rivera, por sua vez, a traiu com a própria irmã de Frida, com quem teve seis filhos.
Após essa outra tragédia de sua vida, separa-se dele e vive novos amores com homens e mulheres, mas em 1940 (apenas um ano depois) une-se novamente a Diego e o segundo casamento é tão tempestuoso quanto o primeiro, marcado por brigas violentas.
Uma curiosidade é que ao voltar para o marido, ela constrói uma casa igual a dele do lado da que eles tinham vivido. Essa casa era ligada por uma ponte e eles viviam como marido e mulher mas sem morarem juntos de novo e se encontravam ou na casa dela ou na dele nas madrugadas. Durante o casamento, embora tenha engravidado mais de uma vez, nunca teve filhos, pois o acidente que a perfurou toda, comprometeu seu útero e deixou graves sequelas, que a impossibilitaram de levar uma gestação até o final, tendo tido diversos abortos.
Essa impossibilidade de gerar filhos era um de seus maiores sofrimentos e seria retratada diversas vezes em seus quadros.
Frida ainda passaria por inúmeras operações cirúrgicas, seqüelas de seu grave acidente, acabando inclusive por ter uma perna amputada. Mesmo assim continua a sua militância em defesa dos trabalhadores e da paz mundial, contra o nazismo. Em que pese não ter o reconhecimento que os muralistas Orozco, Siqueiros, Rivera, entre outros tiveram, Frida, mulher, militante e artista, somente mais tarde teve o reconhecimento devido de uma das principais pintoras do século XX. 
Atualmente, alguns de seus quadros estão cotados em até um US$ 1 milhão.

Curiosidade Fashion:

Antes de Melk Z-da, outros já haviam tentado usar a obra de Frida como inspiração fashion. Nos anos 90, revistas femininas nos Estados Unidos (“Elle”, “Vogue”) traduziram Frida Kahlo em suas páginas em estilo mexicano, transformando seus vestidos em roupas atraentes nos corpos de belas modelos, que posaram em casas ensolaradas e supostamente também mexicanas. As revistas retocaram suas veias, o sangue, as cicatrizes, os pelos de sua face e a morte.
A definição que André Breton fez de Frida e de sua arte -“uma fita ao redor de uma bomba”- acaba por fazer quase o mesmo das revistas norte-americanas. Ao enlaçar a bomba com uma fita, a fita distrai a bomba e a bomba acaba por ser um mero elemento para mostrar a fita.
Desta maneira, assim como no desfile de Melk Z-da, Frida Kahlo é retocada de forma a tornar-se palatável e, por que não, consumível. 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pensamento: Sêneca




If one does not know to which port one is sailing, no wind is favorable. 
Sêneca

(Se não soubermos para que porto estamos velejando, nenhum vento é favorável)

Sêneca foi um célebre pensador do império romano. Apesar de ser rico, vivia modestamente. Dizia que o sábio não estava obrigado à pobreza, desde que o seu dinheiro tivesse sido ganho de forma honesta. No entanto, devia ser capaz de abdicar dele.
Sêneca via-se como um sábio imperfeito: "Eu elogio a vida, não a que levo, mas aquela que sei dever ser vivida." Os afetos (como relutância, vontade, cobiça, receio) devem ser ultrapassados. O objectivo não é a perda de sentimentos, mas a superação dos afetos. Os bens podem ser adquiridos, à condição de não deixarmos que se estabeleça uma dependência deles.

Falar “errado” está na moda!


Nas últimas semanas muita gente falou a respeito do novo Livro Didático de Língua Portuguesa. Isso porque o livro traz um tópico interessante e aparentemente muito polêmico: A questão da língua culta, a escrita e a falada pela população em geral. O problema surgiu quando muitas pessoas (jornalistas, críticos e simpatizantes) começaram a questionar o conteúdo do livro. Afinal, a escola não pode e não deve ensinar a falar errado!
Antes de discorrer a respeito, devo dizer que muito do que vou escrever aqui foi baseado nos textos Uma Pequena reflexão sobre a Língua de Beatriz Pires Santana (http://www.facebook.com/notes/beatriz-pires-santana/uma-pequena-reflex%C3%A3o-sobre-a-l%C3%ADngua/209675619072299), Polêmica ou Ignorancia de Marcos Bagno (http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=745) e no livro A Língua do Brasil amanhã e os outros Mistérios do Marco Perini. Pois bem! O que é falar errado? A língua falada deve ser diferente ou não da escrita? Oras, você aí que gosta de moda diria que existem diferenças entre a roupa usada nas passarelas e as usadas nas ruas? É claro que sim! São dois mundos relacionados, com certeza, mas radicalmente distintos. Não faria sentido então dizer que uma está certa e a outra (coitada!) errada. Acredito que são contextos diferentes.
Logo, dizer que o Português certo é o escrito e o falado é errado faz pouco sentido. A escrita é muito mais que uma representação gráfica da fala que, por sua vez não está necessariamente ligada à escrita. Uma criança de quatro anos já é em geral fluente em sua língua materna, se comunica perfeitamente bem e nem pensa ainda em escrever!
Além disso, existe certo preconceito ao ir contra as regras gramaticais que, aparentemente estão cristalizadas em um pedestal de ouro e ninguém deve questioná-las! O que em geral não percebemos é que saber “gramática” não é conhecer um idioma. Isso é só estudar gramática. O que quero dizer é que muitas estruturas e palavras que usamos hoje e são consideradas corretas (inclusive nos dicionários) são resultados de alterações causadas ao longo do tempo, pela etimologia popular. As formas “pra mim fazer” ou “as menina vão lá” são aceitáveis do ponto de vista comunicativo. Por que o livro de gramática diz que isso está errado? A gramática é um estudo de hipóteses sobre um idioma e hipóteses podem (e devem) ser contestadas! A língua está em constante movimento e assim como na moda, conceitos de “certo e errado/bonito e feio” mudam com o tempo!
Falar “errado” está na moda! Oba!

domingo, 29 de maio de 2011

Hicoulture-se sobre o Jeans


Esse assunto vai render alguns posts. Vamos começar com um pouco de história sobre este que é o item que não pode faltar no guarda-roupa de ninguém.
Muita gente pode saber que o primeiro jeans foi feito por Levi-Strauss, mas possivelmente não sabe de onde surgiu a sua ideia.
Durante o século XIX, acontecia nos Estados Unidos a corrida pelo ouro. Os mineradores trabalhavam incessantemente e precisavam de roupas que fossem resistentes para o trabalho pesado das minas. Em 1853, o jovem judeu alemão Levi-Strauss foi ao velho oeste americano vender lona para cobrir as carroças dos mineradores, mas não encontrou demanda para o seu produto diante de um mercado já saturado. Teve então a incrível ideia de levar um dos trabalhadores ao alfaiate e, com o tecido que não conseguiu vender, confeccionou uma calça altamente resistente.
Logo as calças feitas com lona se espalharam entre os mineradores. No entanto, esse material era muito rígido e desconfortável, o que fez Strauss buscar um tecido mais flexível, porém de igual resistência. Foi como chegou ao “denim”, tecido que vinha da região “de Nîmes”, na França. Usado pelos marinheiros Genoveses, apelidados de “genes” pelos franceses e em seguida de “jeans” pelos americanos, o tecido fez sucesso imediatamente. A cor azul veio só depois, em 1890,  quando Strauss decidiu tingir as peças com o corante de uma planta chamada Indigus, dando a cor pela qual o jeans é hoje conhecido. Foi uma estratégia para transformar a sua criação em uma peça mais atraente. 

Os bolsos traseiros só foram inseridos em 1910. 
As famosas tachinhas de cobre nos bolsos vieram para dar mais durabilidade e ainda mais resistência, uma vez que não resistiam ao peso à que eram submetidos. Quem teve a ideia deprender os bolsos com os mesmos rebites que eram usados nas correias para cavalos foi o fabricante de capas para equinos Jacob Davis, que viria a tornar-se sócio de Levi-Strauss no empreendimento.
Depois disso outros trabalhadores começaram a usar a peça para as tarefas que exigiam maior força física.
Foi somente a partir do século XX, mais precisamente na década de 30, que o jeans começou a se popularizar, Passou a ser usado pelos cowboys norte-americanos, quando apareceu em filmes que retratavam o clima western, que se tornou moda. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados norte-americanos usavam uniformes confeccionados com o tecido, dando ao denim uma imagem de virilidade. Após a vitória dos Aliados, o jeans se espalhou pelo continente Europeu.
Na década de 40, os cowboys do asfalto montavam suas motos Harley-Davidson trajando o jeans. Mas foi na década de 50 que o jeans se transformou em símbolo de rebeldia, quando, no filme Juventude Transviada, o ator James Dean, no papel do jovem e rebelde Jim Stark, apareceu usando a combinação clássica: calça jeans e camiseta branca. 
James Dean


Além de Dean, Marlon Brando e Elvis Presley contribuíram para que o artigo se disseminasse entre os jovens da época, que teve sua imagem intrinsecamente ligada ao rock. 
Marlon Brando
A imagem rebelde do jeans se tornou tão forte, que o traje passou a ser proibido nas escolas e em lugares como cinemas e restaurantes. Logo depois, novas modelos, como Marylin Monroe, usavam o jeans com um apelo sensual.
Marilyn Monroe
Depois de James Dean e Marlon Brando, vieram os Beatles, Bob Dylan e Jimi Hendrix, e o jeans continuou se colocando como peça principal do visual jovem. 
Beatles
Na década de 70, com a guerra do Vietnã, surgia um novo grupo, cujos ideais eram baseados na busca pela paz. Os hippies americanos adotaram o jeans como peça essencial do visual largado e mais uma vez ele se tornou parte de uma cultura jovem. Foram os hippies que introduziram a idéia de customização das peças, feitas por meios artesanais e logo em processos industriais. Ele havia entrado de vez para o vestuário, como uma peça funcional e barata, sempre ligado a um símbolo de juventude. 

Na mesma época o jeans inicia sua globalização e se insere na indústria européia, que transformou a aprimorou o design e o acabamento, se tornando grande referência na produção do artigo na indústria da moda. 

O primeiro estilista a colocá-lo na passarela foi Calvin Klein, em 1970, fazendo com que o produto chegasse a todas as classes sociais.
Brooke Shields em campanha para a Calvin Klein


Aliás este é o seu grande trunfo: a inclusão social. Tanto um simples operário quanto pessoas ricas o utilizam. O jeans ainda ganhou outro público depois da inclusão do elastano em sua composição, dando o caimento perfeito tão apreciado pelas mulheres.
Antes dos anos 80, no entanto, era muito desconfortável, pois chegava ao consumidores sem nenhuma lavagem e engomado. Esse desconforto só desaparecia após algumas lavagens domésticas.
Foi justamente nessa época que as lavanderias industriais surgiram e foram responsáveis por desengomarem e amaciarem o jeans. Com a criação do “stone wash”, nome conferido ao uso de pedras no processo, as calças passaram a ter um efeito envelhecido, permitindo assim criar vários tons de azul. Jeans claros e escuros, pela primeira vez, andavam lado a lado nas ruas. Já as rasuras são produzidas com ferramentas de construção, como por exemplo, a esmerilhadeira.
O jeans atravessou o século XX sofrendo incessantes transformações, resistindo às tendências e modismos, propagando estilos e comportamentos e se tornando o maior fenômeno já visto na história da moda, um acontecimento sem precedentes. 

O jeans transcende a moda, e talvez já não possa ser denominado como tal; está acima dela, pois, embora sofra alterações ao longo do tempo, ele permanece vestindo homens, mulheres e crianças, há 150 anos.